sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nietzsche - Anticristo - Capítulo X


Entre os alemães sou imediatamente compreendido quando digo que o sangue teológico é a ruína da filosofia. O pastor protestante é o avô da filosofia alemã; o protestantismo em si é o peccatum originale. Definição do protestantismo: paralisia hemiplégica do cristianismo – e da razão... Precisa-se apenas pronunciar as palavras “Escola de Tübingen” para compreender o que é, no fundo, a filosofia alemã – uma forma muito astuta de teologia... Os suevos são os melhores mentirosos da Alemanha; mentem com inocência... Qual o porquê de toda alegria que se estendeu pelo universo erudito da Alemanha – que é formado em três quartos por filhos de pastores e professores – com o aparecimento de Kant? Por que ainda ecoa na convicção alemã que com Kant houve uma mudança para melhor? O instinto teológico dos estudiosos alemães os fez enxergar nitidamente o que tinha se tornado possível novamente... Abria-se um caminho que conduzia de volta ao velho ideal; os conceitos de “mundo verdadeiro” e de moral como essência do mundo (os dois erros mais viciosos que já existiram!) estavam, uma vez mais, graças a um ceticismo sutil e astucioso, se não demonstráveis, pelo menos irrefutáveis... A razão, o direito da razão, não vai tão longe... A realidade foi relegada a uma “aparência”; um mundo absolutamente falso – o da essência – foi transformado na realidade... O sucesso de Kant foi um sucesso meramente teológico; assim como Lutero ou Leibniz, ele não foi senão um empecilho à já pouco estável integridade alemã. 



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